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01.AGO.17 - 12:19

Quando os Sons são Bons

Colocou no mapa uma pequena aldeia ali para os lados de Tomar. Tem juntado, ao longo dos anos, a nata da música portuguesa. Chama-se Bons Sons, decorre de 11 a 14 de agosto, e tem como diretor Luís Ferreira, com quem o Canal Superior esteve à conversa.

Quem é o público do Bons Sons?

Não existe apenas um público BONS SONS mas sim vários públicos. Esta heterogeneidade e o ecletismo do programa são já duas marcas deste festival. O BONS SONS recebe um público jovem e urbano, que percorre várias propostas culturais a nível nacional. Recebe também um público de âmbito regional que vê neste festival a forma de contactar com os seus artistas. O festival apela ainda a um público familiar que, pelas garantias de segurança e de escala humana, adere à nossa programação. Temos ainda um público muito jovem que vê, em Cem Soldos, o cenário preferido para o seu primeiro festival. Em relação à música encontramos tanto quem procura as sonoridades mais urbanas como aqueles que se reveem nas referências mais tradicionais. O BONS SONS é para todos os que gostam de música e que gostam de viver a genuinidade da aldeia. 

O que mudou nestes 11 anos de festival?

Fora o modelo comunitário da organização e a plataforma da música portuguesa, podemos dizer que tudo mudou. O código genético e o conceito do BONS SONS mantêm-se mas toda a forma se tem alterado para responder às necessidades e expectativas da aldeia, artistas, parceiros e público. Aumentámos o número de palcos e projetos programados, alterámos o desenho do festival e fechámos o recinto a partir de 2010. Criámos mais serviços de apoio e equiparámos o nosso recinto ao dos melhores espaços nacionais. O que não se vê e poucos sabem é que o BONS SONS é um evento que investe na capacitação. Graças ao esforço que, por esta via, fizemos nas pessoas da aldeia, o festival tem podido crescer sustentadamente. 

O que vos continua a mover?

Cem Soldos é a razão e os resultados estão à vista. Temos efeitos práticos nos projetos sociais como "Cem Soldos e a Escola", ou o "Lar Aldeia". Conseguimos perceber que Cem Soldos está a fixar e a atrair novas famílias. Também o orgulho dos cem-soldenses está em crescimento e temos noção de que o saber-fazer que adquiriram neste evento, o estão aplicar a outros projetos. No fundo é isto, ter provas práticas e palpáveis de que este é o caminho, é a garantia necessária para não desistirmos.  

Alguma vez pensaram abrir o cartaz a bandas estrangeiras ou mantêm-se fiéis a este formato?

Nem por isso, assumimos que é um festival para o panorama da música portuguesa. O que pretendemos, isso sim, é abrir o festival a visitantes estrangeiros. Nesta edição começámos a comunicar internacionalmente, com o objetivo de abrir o auditório da música portuguesa. Consideramos que o BONS SONS é o contexto ideal para conhecer a nossa cultura, para criarmos um show case muito representativo e com isso atrair as pessoas certas, que podem dar garantias de internacionalização aos projetos programados. Sem sairmos de Portugal, podemos ajudar a comunicar a música portuguesa lá fora. 


Durante o festival, o que acontece aos 1.000 habitantes de Cem Soldos? 

Acontecem duas coisas: primeiro, o número de habitantes duplica. Os cem-soldenses espalhados pelo mundo regressam e reforçam a comunidade. O BONS SONS é um momento de encontro para os cem-soldenses. Depois - o segundo acontecimento - é durante o festival, esta comunidade alargada está envolvida no trabalho do festival e no seu contributo para que tudo corra bem. Nós, "operários da cultura", como geralmente nos chamam, trabalhamos todos durante o festival. É a população de Cem Soldos que comunica, produz e constrói o BONS SONS. Durante o festival existem centenas de pessoas a trabalhar nos vários serviços de restauração, de acolhimento, de apoio à programação, na parte financeira, nos estacionamentos, nas cozinhas, no campismo, nas bilheteiras, entre um sem número de outras atividades. 

É fácil organizar um festival de música em Portugal? Porquê?

Não sei como é organizar um festival no resto do mundo. Não sei se tem a ver com ser em Portugal ou não, mas não é fácil. O BONS SONS é um projeto arriscado e é esse risco que o torna mais desafiante, mas também muito pesado. O festival sobrevive com as suas receitas e, como as pessoas não compram os seus bilhetes com grande antecedência, vivemos sempre numa grande incógnita. Outra dificuldade é criar o recinto que cerca a aldeia para fazer acontecer o BONS SONS. Uma vez que tentamos minimizar este constrangimento para que a vida dos habitantes decorra ao máximo na sua inabalável continuidade, só quase de véspera é que instalamos esta cidade dentro da aldeia. Apesar de estarmos entre os 15 festivais mais populosos de Portugal e de termos uma comunicação forte, ainda não conseguimos ter grandes apoios que nos ajudem a minimizar o risco. O que torna o BONS SONS especial é também o que o torna mais difícil. Contudo, ainda acreditamos que o esforço compensa e que estas dificuldades são também a garantia da nossa independência.

Foto de Cem Soldos: Carlos Manuel Martins
Foto de Luís Ferreira: Pedro Sadio  

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