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16.MAR.18 - 10:55

O presente exagerado

Velocidade de Escape, uma peça simples e complexa, sobre como nos libertarmos do passado para enfrentarmos o futuro. De 16 a 18 de março, no Teatro Carlos Alberto, no Porto.

Três personagens em palco. Ou melhor, numa parte bem delineada do palco, uma espécie de carpete branca, um quadrado perfeito no chão. É assim que começa e é assim que se desenrola o espetáculo.

Pedro – encarnado pelo homónimo Pedro Carreira – é um quarentão que aparentemente se “libertou” do passado e de todas as responsabilidades, afetivas e efetivas, de uma vida demasiado complicada. Hoje em dia, vive num mundo “leve” e “limpo”. Tem dois convidados em casa: Ana – Mafalda Banquart – e Bruno – Tiago Araújo – cuja presença resulta de uma seleção feita por uma espécie de “algoritmo”. São convidados de Pedro mas não se conhecem. Estão ali para “passar tempo juntos”, naquele cenário a preto e branco, sinónimo do minimalismo zen das suas vidas.

A contrastar com esta monotonia de tons, há, ao fundo, uma parede que exibe os mais variados cenários, adequando-se convenientemente ao ambiente, passando do aconchego de uma lareira a imagens psicadélicas acompanhadas por playlists pré-definidas. Refira-se que estas playlists foram pesquisadas na internet, ao longo do processo de criação da peça, e correspondem às mais procuradas em cada “mood” procurado.

Tudo perfeito. Na paz do Senhor, como diriam os crentes. O ambiente “tá-se bem” quase robótico é quebrado pela descoberta de um objeto incómodo. Uma simples caixa de cartão que fica mal em palco, destoa, perturbando Pedro. Aquela caixa contém objetos do passado e afinal o mundo “escapista” – palavra usada pelos autores – em que vive não é assim tão perfeito. O que fazer? Arranjar um canto onde caibam essas inconveniências ou deitar fora a caixa e com ela a vida imperfeita de outrora? E afinal, qual é a função de Bruno e Ana? Vieram para “estar” ou para ajudar a resolver um “problema”, palavra que não cabe nesta realidade?

Velocidade de Escape é uma criação do coletivo Visões Úteis, escrita e encenada por Ana Vitorino, Carlos Costa e João Martins. Complementa um outro espetáculo, Teoria 5 S. Enquanto este se referia a um “arquivo problema”, que “não se deixa projetar para o futuro”, Velocidade de Escape coloca a questão: o que fazer com o arquivo no futuro? Em palco está o representante de uma geração que teve de se “libertar” dos velhos costumes, Pedro, o anfitrião, e dois convidados que não entendem essa libertação porque sempre viveram na simplicidade aparente do “mundo-escape”. E atenção que isto não é ficção científica. Segundo Ana Vitorino, “isto não é o futuro, nem sequer um outro mundo”. Isto é o “presente exagerado”.

Em cena a partir de hoje, 16 de março, e até domingo, dia 18, no Teatro Carlos Alberto, no Porto.

Fotografias de João Tuna

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